CARLOS DE OLIVEIRA E NUNO JÚDICE: POETAS-PERSONAGENS DA MESMA HISTÓRIA*

 

Ida Maria Santos Ferreira Alves -UFF

 

O futuro de Portugal foi, desde cedo, o “lá fora”, a distância, nossa ou alheia. Foi a Índia, o Brasil, a  África, recentemente e a vários títulos, a Europa. Hoje, é a primeira vez que Portugal e os portugueses têm de desenhar, de conceber, de inventar e se dar um futuro a partir de si mesmos.

          Eduardo Lourenço[1]

 

 

                 Os últimos cinqüenta anos deste século caracterizaram-se pela  rapidez das mudanças nos mais diversos níveis da vida  e pela multiplicidade de informações, relativizando-se os conceitos de realidade e verdade. Acentuou-se o individualismo numa competição de mercado e de lugar nos grandes espaços urbanos contemporâneos, paisagens construídas que favorecem o isolamento, o decréscimo de solidariedade  e a não partilha de experiências de vida. Nas florestas contemporâneas que são as metrópoles, os caminhos se cruzam, mas não levam as pessoas ao encontro e os indivíduos vivenciam cada vez mais fortemente a sensação angustiante de uma prisão a que não se pode escapar[2].

                 Carlos de Oliveira (1921-1981) e Nuno Júdice (1949) são poetas portugueses

que pertencem a esse tempo e dele falam nas indagações de uma escrita estético-filosófica, o que equivale dizer que, em seus textos, está em reflexão a cultura que os formou e em relação à qual eles acrescentaram  perspectivas, demarcando lugares de diferença. Suas produções poética e de ensaística pensam o homem no mundo, mas especialmente traçam os contornos de uma cultura poética e de uma cultura portuguesa,  definindo sobre o papel mapas para percorrer o que podemos denominar de “comunidades imaginárias”: o poético e a portugalidade. O modo como habitam essas “comunidades” não só demonstra as diferenças de suas trilhas, como indica momentos
de encontro ao partilharem identidades: poetas e portugueses.

                 Tanto Oliveira como Júdice  escrevem com a certeza de que partilham a tradição lírica ocidental. Seus versos, para além de seus motivos temáticos específicos, indicam encontros com  a literatura e a arte para além dos limites nacionais. Há, portanto, no conjunto de suas obras, a defesa de uma memória estética indispensável aos poetas da contemporaneidade, para que continuem a testemunhar o movimento de criação e transformação através do tempo. Por serem poetas bastante atentos à elaboração do poema, essa certeza de partilha de uma tradição não significa um olhar passivo de mera continuidade, e sim uma perspectiva crítica que põe em questão essa partilha e o próprio ato de escrita pensado em sua temporalidade. Escrever é presentificar, com olhos voltados para o passado e o futuro; é falar de tempos e se realizar num tempo. Como bem disse Joaquim Manuel Magalhães, outro poeta e também crítico português, em cada poema é a “globalidade da poesia que está em jogo”[3] Portanto, o ato de escrita poética é fundamentalmente absorção e metamorfose, ou, dito de outra maneira, uma “escrita sempre leitura” capaz de ecoar ou reinterpretar ou recusar[4] algo que lhe é anterior e que possui uma aura definida: ser tradição.

                 No campo literário, freqüentemente associa-se essa idéia de tradição à noção de clássico, considerando-se que se está falando de uma produção artística que permanece no tempo como modelo, como exemplo  de uma obra de arte que atingiu  alto grau de excelência. No entanto, hoje, tanto a noção de tradição como a de clássico estão relativizadas, como nos mostra, por exemplo, Ítalo Calvino em Por que Ler os Clássicos em cuja introdução discute exatamente a variedade de definições para o conceito de “clássico”. É, afinal, a leitura que nomeia o clássico ou identifica tradições. Na escrita dos poetas, é a intertextualidade um procedimento crítico de “leitura”  que vai em busca de fontes, imagens e identidades. E é isso o que ocorre de forma insistente nas obras de Carlos de Oliveira  e Nuno Júdice, escritores por demais atentos à essa contra-face da escrita: a leitura

                 Interessa-nos, por exemplo, compreender que  pontos de contato e de diferença vêm à tona quando Carlos de Oliveira  retorna a escritores portugueses como Gil Vicente, Camões, Camilo Pessanha, Cesário Verde, Gomes Leal, António Nobre,
Afonso Duarte, José Gomes Ferreira e Fernando Pessoa, além da tradição medieval e popular; estrangeiros, como Shakespeare,  Quevedo, Jane Austen, Edgard Allan Poe por meio de Baudelaire, Aragon, Desnos, Maiakovski, Rilke, Carlos Drummond de Andrade, António Machado, Erskine Caldwell e Malcolm Lowry.

                 O poeta português define assim  espaços de diálogo  sobre a ação da palavra literária, seja em termos de sua própria elaboração, seja em termos de mediação entre o sujeito e o mundo. Retoma versos, faz epígrafes, cita esgarçadamente, transforma idéias, constituindo a sua “comunidade de escritores”. Há nessa comunidade escritores (poetas e romancistas) de tempo diversos, clássicos, românticos, simbolistas e  contemporâneos, falando do tempo, da morte, do mal-estar da vida, mas, principalmente, da própria atividade literária.

                 Em relação aos escritores portugueses evocados, o encontro / desencontro faz revelar visões de mundo e visões textuais que o escritor moderno contrasta e questiona com a situação portuguesa em que vive e com a escrita que produz. Note-se que esses escritores chamados a dialogar são predominantemente poetas, portanto, é uma tradição lírica que é invocada e que revela como temáticas a melancolia frente ao mundo e a relação tensa com a pátria. Recordemos que esse diálogo é mais explícito na primeira fase de sua produção (décadas de 40 e 50) e que, na segunda (décadas de 60 e 70), a citação direta vai rareando até se transformar num processo de inscrição de vestígios a ser recuperado pelo leitor. No entanto, mais importante  é observar que entre os poetas citados, um deles é o mais confrontado: Camões. A presença camoniana, ao longo de toda a obra de Carlos de Oliveira, ocorre mais de uma vez e, significativamente, está presente também no último livro de poesia. O Camões retomado é predominantemente o lírico e essa escolha evidencia uma posição que nega a tradição ideológica de glória e de louvor pátrio com o uso e abuso dos versos épicos camonianos, os quais, aliás, ao aparecerem na escrita de Carlos de Oliveira, sofrem diluição e são invocados na “diferença”.

Tágides trazendo,

do alto mar à água doce,

a escama, o fósforo, da espuma;

e o sal saturado de vento

a explodir no rio,

nas suas rugas;

com a luz eléctrica baixando

às páginas fac-similadas

do pelicano para a esquerda:

círculo completo

que as centrais, as redes,

mantêm tenso e branco

como a lua; já reconstituída;

a desprender-se do horizonte;

tágides, por fim sobre cavalos

claros; nuas; inventando

um som diferente

aos decassílabos.

(Obras [Entre Duas Memórias], p.354)

 

                  Invocando o lírico, invoca também o poeta do tempo, do desconcerto, mas principalmente atualiza o clássico em termos de domínio do verso e consciência do trabalho poético, a linguagem camoniana como (des)encanto e também como canto que se contempla no domínio da língua.

                 Portanto, se no primeiro momento da obra de Carlos de Oliveira há um tom épico na voz do poeta moderno, arauto e combatente, no segundo, o tom é lírico com gradual despersonalização do sujeito  e neutralização da sombra camoniana. Escritor que acredita no valor da forma (O amor das palavras vivas, incisivas, o aprofundamento dos meios de expressão, é o dever mais elementar do romancista, do poeta. (Obras [Aprendiz de Feiticeiro], p.470)não repudia a tradição clássica, mas põe em tensão a presença camoniana na atualidade da cultura poética portuguesa, na medida em que  configura uma forma de poder.[5]

                 Quanto a Nuno Júdice, é um leitor especializado da literatura européia e continuamente interroga a escrita alheia para (re)conhecer o movimento de criação e questionar seus efeitos. Sua preocupação crítica o faz reavaliar os  clássicos latinos, os mestres do romantismo alemão, do simbolismo francês, poetas e romancistas contemporâneos, repensando modos de estar na linguagem. Mas, fundamentalmente ressoam duas grandes vozes poéticas estrangeiras: Hölderlin e Mallarmé, principalmente no que consideramos sua primeira fase de produção poética. Duas vozes bem diferentes; uma, falando da poesia como essência e salvação; a outra, exercitando o lúdico na materialidade da escrita e pondo em risco a própria literatura. Os dois, poetas-pensantes, que transformaram a escrita poética numa indagação, numa exploração, estabelecendo a linhagem dos poetas Igitur (o que se contempla a si mesmo), mas esse “si” deve ser compreendido como “mundo”, no contexto de um modernismo crítico[6].

                 Das vozes poéticas portuguesas, reencontramos clássicos como Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, contemporâneos como Herberto Helder, Ruy Belo, e mesmo vestígios da poética de Carlos de Oliveira, contudo Júdice é declaradamente um leitor permanente de Fernando Pessoa[7] e dele absorve as lições sobre a fragmentação do sujeito, o fingimento e o afastamento necessário entre o pensar e o sentir, avaliando a “herança” pessoana que é afinal uma tradição portuguesa de modernidade.  

                 Assim, se a poesia de Carlos de Oliveira enfrenta e confronta o texto camoniano, a poesia de Nuno Júdice enfrenta e confronta o texto pessoano. Se o primeiro ativa a escrita clássica, o segundo, ainda que também demonstre sua atração pelos clássicos, aprofunda o questionamento da escrita moderna. Em ambos, a tradição lírica como motor a pôr em movimento a poesia contemporânea que reconhece como necessidade de seu próprio trabalho a avaliação crítica do que já foi produzido.

                 Os dois poetas assemelham-se pelo mesmo sentido de rigor e exigência lingüística, retomando um classicismo poético pela disciplina no manejo das palavras e pela idéia de que a poesia é uma prática nada ingênua de linguagem. Nessa direção, a escrita camoniana é exemplar pois é, em língua portuguesa, o momento inicial de afirmação do poeta como criador de mundos e um personagem da linguagem, ciente de que, nos poemas, o tempo é relativizado e a eternidade transfigurada. E não é a escrita pessoana o paroxismo disso, inventando-se a cada poema e deixando para a realidade uma biografia indiferente em prol de personagens de papel muito mais concretos? Não são seus versos um exercício permanente da construção e desconstrução poética?   

                 Dessa forma, Carlos de Oliveira e Nuno Júdice avaliam em suas obras a  escrita poética da modernidade e as linhagens que, afinal, possibilitaram essa modernidade, situando sua produção no interior da literatura ocidental e no contexto da literatura portuguesa.  E fazem isso, sem rejeitar tradições, pois são ambos poetas por
demais preocupados com o trabalho com as palavras, esteticistas  no sentido de rigor e    exigência poéticos, que reconhecem ser a literatura  uma continuidade de partilha de escritas através do tempo. A escrita poética desses dois poetas, portanto, narra uma “história” da poesia, na medida em que demonstra ser a escrita literária uma atividade de reflexão no tempo e sobre tempos diversos da linguagem.   

                 Se aceitamos a idéia de que o texto literário é, no sentido mais amplo, uma narrativa que configura e refigura mundos, pensar uma literatura nacional  é pensar também o modo como reflete a sua cultura  e sociedade.  Assim, no contexto da literatura portuguesa, examinar criticamente as obras poéticas de Carlos de Oliveira e de Nuno Júdice é pensar igualmente a cultura que os formou mais diretamente, fundada sobre uma determinada língua e a partir de um território físico com sua realidade, História e imaginário.  Dessa forma, os poetas têm como questão comum PORTUGAL, sua identificação como país e nação na Europa, além de lugar de uma cultura específica no âmbito da cultura ocidental.[8]

                 Se podemos dizer que nas obras de alguns poetas sempre lembrados para a compreensão das diversas trajetórias da poesia portuguesa contemporânea como Jorge de Sena, Sophia de M. B. Andresen, Eugénio de Andrade,  Ruy Belo, Manuel Alegre, Portugal aparece como espaço claramente nomeado e criticado por seus caminhos insatisfatórios e por uma História idealizadora e dirigida pelo poder político[9], na escrita poética de Carlos de Oliveira (segunda fase) e de Nuno Júdice ocorre um processo de descentramento acentuado da imagem nacional, realizando-se o que podemos chamar de desterritorialização, na medida em que se afastam de um certo número de referentes e de mitos que caracterizam realmente Portugal. E o mito supremo, o que resultou desses mitos, nem é o sebastianismo, nem é nenhum desses temas, é pura e simplesmente a própria palavra Portugal.[10]

                 A segunda  fase da obra de Oliveira se diferencia da primeira, entre outros fatores, pelo apagamento da imagem de Portugal, com o sujeito lírico voltando-se cada vez mais para o interior da linguagem que se constitui um outro território de habitação: a língua e a cultura que ela manifesta. Nos poemas desse momento a carga referencial à nação se dilui, restando elementos da terra (pastores, animais, dunas) da infância, a Gândara transformada em metáfora do mundo. No último livro, Finisterra (1978), Portugal pode ser invocado pelo título[11], mas essa “finisterra” pode ser também um espaço outro, de silêncio, a que chega o poeta no interior do poema. A sua produção  a partir da década de 60 acentuou a relação do poema com a matéria lingüística, assumindo que o ato poético não pode ficar dependente nem da biografia, nem da ação política partidária, despersonalizando-se, portanto, duplamente: em termos do sujeito lírico e do sujeito nacional. Se esse dilema marcou a produção de suas primeiras obras, no que se considera a segunda  fase de seu trabalho poético, a opção se fez e a recepção crítica vacilou na sua compreensão: para uns, formalismo esteticista; para outros, um discurso de falência e desistência, um “mundo que parou”. Espantou, talvez, que essa escrita que nunca negou sua adesão neo-realista, seu interesse político, calasse a história social, a história da nação para exilar-se num mundo de palavras.

                  Na obra de Júdice, desde os primeiros livros, o território explorado não  recebe o nome de Portugal, caminhando os sujeitos líricos por lugares e tempos diversos da cultura do Ocidente, encontrando-se, na escrita sobre o papel, esse lugar branco, neutro, não nomeado, lugar transnacional. Nuno Júdice, um jovem nos anos 70, a par certamente dos movimentos contestatórios de 68, que sentiria as tensões políticas em seu país[12], com a exaustão das guerras coloniais e com o agonizar do regime salazarista, espantava a crítica com a publicação de livros em que simplesmente se falava da obsessão da literatura, neutralizando sua contemporaneidade e a  história nacional. No continuar de sua produção, o poeta jovem encontrou seu “espaço de diferença” que era exatamente o de não estar onde todos estavam: Portugal e a obsessão de sua história. Júdice, no poema Re-Canto nos faz ouvir essa opção:

 

De que pátria me direis o ouro azedo? De que barcos

presos nos canaviais da margem encontrareis o traço em crónicas

de água e sangue? Desço aos porões da memória, os braços

enredados nas frases incertas do passado; e avanço por entre

esses corpos que o suplício dos ventos adormeceu, os lábios

gretados pelo sol e pelo sábio sul. Afasto da minha frente

um sono de séculos. [...]      

(Movimento do Mundo, p.18)

 

                 Quando Portugal é nomeado em alguns pouquíssimos poemas, a visão é de repúdio a uma imagem estática e de isolamento do mundo. O poeta que transita pela cultura ocidental não se resigna aos limites de um território geográfico  e busca uma situação universalista.

                 São dois poetas de idades  diferentes, dois poetas de projetos estéticos e ideológicos diversos que se encontram numa mesma opção: a rasura de Portugal como significante[13] no silenciamento do canto histórico valorizado pela tradição nacionalista, para que outra história mais fundamental se possa ouvir. Ocorre uma urgente desterritorialização política, social e mítica, reagindo de forma corajosa a uma História imposta e cheia de lacunas, a uma sociedade centrada inutilmente em si e como que parada no tempo. No entanto, é preciso que se entenda que a rasura, o silenciamento não faz a terra inexistir, pois ficam os vestígios, os fragmentos, mesmo as ruínas, e, neles, está o Portugal que lhes importa, paisagem materna, lingüística e cultural, lugar primeiro de conhecimento de si e do mundo, através de um imaginário que se configura e se estrutura em língua portuguesa. Sobre isso, é relevante lembrar um poema de Nuno Júdice intitulado O Nome de Estefânia no Castelo de Hohenzollern, no qual o sujeito poético percorre um museu estrangeiro e nele se depara com um nome português:

 

Os nomes nada significam sem a imaginação de um

corpo: rostos inexistentes dão figura a reis e

filósofos da Antiguidade. [...]

[...] Tudo integra uma

ordem genealógica que sobrevive à ignorância da

História. Salas, corredores, armaduras, quadros, des-

critos em bom alemão pela guia cuja memória invejo,

encontram os seus antigos habitantes do discurso

a que o tempo deu conveniente arrumação. [...]

[...] Reduzido a datas e efemérides,

 o passado cansa ¾  sobretudo quando nada se per-

cebe da língua em que nos falam. Foi então que o

nome de Estefânia, rainha de Portugal, me apareceu

inscrito numa parede da capela. O mais insignificante da visita;

uma simples notação de arquivo de

família. Nem um retrato, nem uma indicação bio-

gráfica. Mas esse nome voltou a chamar-me à realidade

de uma existência concreta, com os sentimentos

e emoções do ser.

[...]

(Um Canto na Espessuara do Tempo, p.43)

 

                 A obra poética de Carlos de Oliveira a partir dos anos 60 e a de Nuno Júdice a partir de 70 fazem a crítica do uso da linguagem para falar do ser e do mundo, falam da portugalidade como cultura e não território político, falam a partir de janelas que se abrem para territórios de palavras. Há assim o que podemos chamar de reterritorialização, movimento de ocupação da língua e nomeação dessa língua no espaço cultural do mundo. Se “o país saltou do mapa” (Canto na Espessura do Tempo, p.79), o lugar vago será preenchido por palavras que, sem falar dele, é ainda dele que fala, pois fala de um lugar de cultura, de um lugar que se demarca numa língua. Há, então, uma geografia imaginária, onde o mar, espaço simbólico no imaginário português é substituído pela terra, a partir da qual se narra  outra demanda simbólica da diferença cultural.[14]

                 Suas obras, assim, representam para nós o esforço que a poesia portuguesa contemporânea vem fazendo para cumprir a modernidade que Pessoa / Orpheu defenderam: criar uma arte cosmopolita no tempo e espaço, assumindo sua autonomia na linguagem[15].

                 Dois poetas cruzando fronteiras, sim, críticos na sua relação com a terra de origem, cada vez mais personagens da linguagem,  integrando outras comunidades para além da realidade nacional. O processo poético calando ou ocultando o nome Portugal, acaba por revelar em negativo o processo de identificação de uma terra pela língua e pela cultura que é capaz de produzir, num processo  de diálogo e negociação de afectos, crenças, hábitos e mitos –  numa relação permanente com o Outro da própria Europa, o Oriente mítico, a África insondável, a aurora americana[16],caminho necessário para redefinir as fronteiras reais e imaginárias do país, inventando ou construindo, como diz Eduardo Lourenço, o seu futuro.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

ALVES, Ida Maria Santos Ferreira. Carlos de Oliveira e Nuno Júdice, poetas: personagens da linguagem. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2000. 335p. [Tese de Doutorado em Literatura Portuguesa]

BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos? São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

COELHO, Eduardo Prado. O cálculo das sombras. Lisboa: Asa, 1997.

COELHO, Jacinto do Prado. Camões e Pessoa. Poetas da utopia. Mem Martins: Europa América, 1983.

JÚDICE, Nuno. Um canto na espessura do tempo. Lisboa: Quetzal, 1992.

______. O movimento do mundo. Lisboa: Quetzal, 1996.

LINS, Ronaldo Lima. Violência e literatura. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990.

LOURENÇO, Eduardo. O esplendor do caos. Lisboa: Gradiva, 1998.

MAGALHÃES, Joaquim Manuel. Dylan Thomas – consequência da literatura e do real na sua poesia. Lisboa: Assírio e Alvim, 1982.

MOISÉS, Leyla Perrone. Altas literaturas: escolha e valor na obra crítica de escritores modernos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

NEGREIROS, Almada. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997.

OLIVEIRA, Carlos de. Obras. Lisboa: Caminho, 1992. Vol. único.

REBELO, Luís de Sousa. Identidade nacional: as retóricas do seu discurso. In: CRISTÓVÃO, Fernando et al. Nacionalismo e regionalismo nas literaturas lusófonas [Actas do II Simpósio Luso-Afro-Brasileiro de Literatura, Lisboa, abril de 1994]. Lisboa: Cosmos, 1997. p.21-33.

RIBEIRO, António Sousa. Configurações do campo intelectual português no pós-25 de abril – o campo literário. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (org.) Portugal: um retrato singular. Porto: Afrontamento, 1993. p. 483-512.

SAID, Edward W. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

SILVA, Augusto Santos e JORGE, Vítor Oliveira. Existe uma cultura portuguesa?. [Mesa redonda, Porto, 1992, org. Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia]. Porto: Afrontamento, 1993.

VAL., Terezinha de Jesus da Costa. O lugar poético da escrita de Carlos de Oliveira. Rio de Janeiro: Fac. de Letras da Univ. Federal do Rio de Janeiro, 1994. [Tese de Doutorado em Literatura Portuguesa]



* Este texto é parte modificada do capítulo final de nossa tese de doutorado, Carlos de Oliveira e Nuno Júdice, Poetas: Personagens da Linguagem, defendida em maio de 2000, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ.

[1] LOURENÇO, E. (1998), p. 25.

[2] Cf. LINS, R.L. (1990), p.43

[3] MAGALHÃES, J. M. (1982), p.28

[4] Cf. idem, p.29

[5] Cf. REBELO, L.S. (1997), p.24-25: “A sua situação geográfica, e o que nela se veja ou tenha de singular, é diversamente entendida consoante o momento histórico em que se faz a sua leitura. No discurso épico camoniano, Portugal é a cabeça da Europa – momento alto de descobertas e conquistas. Mas quando as sombras do declínio o envolvem, ele é o cabo do mundo e a finisterra do continente. Surgem, assim, dois tipos de discurso que coexistem e alternam no imaginário colectivo sempre que se coloca a questão de Portugal e da Portugalidade: o discurso épico e o discurso da perdição.”

[6] Cf. MOISÉS, L.P. (1998), p.117.

[7] A presença pessoana, como tema ou como sombra a ser enfrentada, está em sua poesia, romance, teatro e ensaística. Em entrevistas ou reflexões diversas, a importância de Pessoa para  definição de sua própria escrita é confirmada sem dificuldade.

[8] REBELO, L.S., op. cit. , p.23: “O fim do colonialismo, trazido com o 25 de Abril, tem conseqüências profundas e sem precedentes que obrigam a repensar a ideia de Portugal.”

[9] Ver artigo de COELHO, J.P. (1983), p.129-134, Portugal Imaginário e Verdadeiro na Poesia Portuguesa, no qual aponta os muitos poetas que dedicaram versos a essa questão.

[10] Cf. Eduardo Lourenço em  SILVA, A.S.  e JORGE, V.O. (1993), p.40.

[11] Apud VAL, T. de J. da C. (1994), p.77, citando  Eugenio D’Ors. Du Baroque. Paris: Gallimard, 1968: “Finisterres  - Irlande, Bretagne, la Galice espagnole, le Portugal, les premièrs iles de l’Océan... Au fond de leur âme, la panique. La panique, acquise immémorialement du temps où ces terres se trouvaient au bord d’une mer à laquelle on ne connaissait pas de limite.”[...] [Finisterras – Irlanda, Bretanha, a Galiza espanhola, Portugal, as primeiras ilhas do Oceano...O pânico,  adquirido imemorialmente do tempo onde essas terras estavam à beira de um mar do qual não se conhecia limites.]

[12] Participou  do I Congresso dos Escritores Portugueses (comissão) que discutiu o nível de participação política do escritor na sociedade portuguesa pós-revolução (maio de 1975).  Apud RIBEIRO, A. S. (1993), p.503 e passim.

[13] Aproveitamos afirmação de Eduardo Prado Coelho em debate registrado em  SILVA, A.S. e JORGE, V.O., op.cit., p.40: “Chegamos àquilo que se pode traduzir assim: a identidade portuguesa é um significante.”

[14] Temos em mente leituras de BHABHA, H. (1998) e SAID, E. (1995).

[15] Escreve Almada Negreiros: “Orpheu era uma consequência fatal de determinados portugueses, desligando-se dos outros portugueses, porém ligados entre si pela mesma fé na elite de Portugal. As suas personalidades vinham já esclarecidas o bastante para uma dignidade comum, por isso mesmo éramos portugueses sem sermos nacionalistas, nem regionalistas, nem indigenistas. Queríamos apenas o mais difícil dos títulos portugueses: sermos portugueses simplesmente!” In NEGREIROS, A. (1997), p.814. A questão é ainda importante quando hoje Portugal está integrado à Comunidade Européia, buscando a união política e econômica com o resto da Europa.

[16] COELHO, E. P. (1997), p.88.